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Amor de Fases: Bastidores dos relacionamentos

07/04/2016

Quem já não se relacionou com alguém, ficou apaixonado, achou que havia encontrado o amor da sua vida e chegou até a pensar que um sentimento tão intenso dessa ordem certamente já teria ocorrido em outras vidas, como se fosse uma espécie de reencontro...?

Aposto que se você não vivenciou isso, pode ter passado muito perto desse sentimento. Talvez estejamos falando de amores idealizados, impossíveis de acontecerem, uma visão que vem do romantismo, ou não. A busca da parceria afetiva, mesmo em pleno século XXI, nessa era pós-digital, não cessa e a evidência desse fato é o grande número de pessoas que continuam firmes em suas empreitadas.

Nessas buscas, muitos ainda, por mais maduros que se imaginem ser, ainda se surpreendem ao se depararem com revelações acerca do ser humano, que mais intensamente se evidenciam apenas nos bastidores de uma relação. Pela ânsia do encontro com a parceria sonhada, deixam-se levar pelo desejo do encontro e cometem um grave erro, quando deixam de observar os sinais. 
Às vezes, no primeiro encontro, algumas conversas já podem nortear se o relacionamento será bom ou não para você, se você poderá lidar com determinados assuntos ou não. Na dúvida, uma conversa franca logo de início pode evitar muita confusão e dor posteriormente. Uma palavra dita na intimidade pode revelar algo oculto e difícil de se lidar e, com certeza, detonará algo desagradável mais à frente. 

É sempre entre quatro paredes que as projeções mais primitivas acontecem. Por mais que estejamos num relacionamento homem x mulher, as cenas primárias mal resolvidas de afetos que tivemos com os nossos pais, podem se sobrepor a tudo, vindo de modo simbólico, ultrapassando o que poderia ser bom. Vou dar alguns exemplos de pacientes meus para que este assunto fique mais claro e para que você possa também, além de identificar situações, ficar mais atento ao que pode estar ocorrendo em sua vida. Esse conhecimento, somado ao olhar mais observador, tem a função de ser uma ferramenta/antídoto, para que você evite cair em ciladas afetivas que nada têm a ver com a sua história pessoal e nem com o que deseja para si mesmo.

Jorge namorou Sandra desde jovem e, logo de início, como se fosse algo lúdico, conseguiu convencê-la de que o relacionamento sexual de ambos ficaria mais apimentado se chamassem um outro homem para uma relação a três. A trama ocorria no momento em que ela factualmente estaria se relacionando com um outro. Durante anos de suas vidas, nessas circunstâncias, ele entrava no meio da relação e, triunfante, executava o ato sexual com ela. Estranho? Nem tanto, seria ingênuo de nossa parte pensarmos que não existem histórias secretas muito diferentes do politicamente correto que aprendemos. Soube deste fato quando a esposa veio ao consultório com o marido, após longos anos de casamento e já com filhos crescidos, dizendo que havia se cansado da tal brincadeira. A partir dessa decisão, um problema conjugal se abriu na relação. A paciente revela que claramente disse ao marido que havia se cansado de brincar depapai e mamãe transando e o filhinho entrando para interromper. Ele, apesar de ter entendido e topado parar, nunca mais conseguiu ter uma relação sexual com ela. Enfim, vieram pedir ajuda pela via da terapia, conscientes que queriam se liberar do cenário simbólico. A princípio, parecia que ela havia se libertado da trama da cena triangular que também, por motivos emocionais seus, por um bom tempo, também fora seduzida. 

Muitos, porém, nem se dão conta de que estão cegos vivendo tais cenários dentro da intimidade sexual. Jonas, por exemplo, estava muito triste quando após seu último rompimento afetivo veio à terapia. Comentou: vou levantar a cabeça e seguir em frente em busca de um novo amor que, com certeza, deve existir em algum outro lugar! Ficou claro que nesse último relacionamento, como em todos os anteriores, que arrumou algo para se isolar da proximidade que estava tendo com sua parceira. Um medo oculto, raivas primitivas mal resolvidas, medo de ser invadido.... A terapia apenas estava começando. No início, do relacionamento como sempre, ficou eufórico, mas no dia a dia, de acordo com os relatos sobre as parcerias que já teve, suas infindáveis críticas e suspeitas começaram a tomar posse do seu primeiro olhar. Nada estava bom o suficiente e aos poucos ele foi se retraindo a ponto de não mais conseguir fisicamente tocar na pessoa que pensara ser o amor de sua vida. Novamente, arrumou desculpas e destruiu a relação. Conta que no começo, na intimidade, tentou dizer à ela que era diferente, mas ela não quis ouvir e por receio de perdê-la desistiu de fazer a sua confissão sexual. Ele sabe que gosta de sexo violento e que sem isso literalmente perde o tesão; dessa vez não foi diferente, continuou, mas a relação deu no que deu, ele se afastou, inventou desculpas e fez o pior que poderia ter feito, culpou-a pelas suas próprias dificuldades de se relacionar, inclusive, acusando-a de cobrar terem relacionamento sexual. Tinha uma vaga noção disso, mas ele próprio duvidava, por acreditar nas dificuldades que criava para se distanciar dela. Algumas noites inventava dores de cabeça, em outras, mal jeito em alguma parte do corpo, ou dizia que não estava a fim e outras vezes nem se dava ao trabalho de falar algo, apenas virava de lado, dizia boa noite e dormia. Em seu mundo interior, tecia histórias e mais histórias para se convencer de que ela não era boa o suficiente para ele. Ainda enlouquecendo a parceira, no dia seguinte, chamava-a de amor e falava outras palavras afetivas. Não precisamos nos estender no que deu, demorou um pouco, mas a moça acabou indo embora da relação, ou entendeu que foi mandada embora.

Outro caso interessante foi de uma moça que veio ao consultório com a queixa de que a vida toda, ela e o marido, dois grandes executivos, saiam de qualquer local que estivessem trabalhando e iam para as suas aventuras de swing. O fato é que ele aparentemente do dia para a noite se cansou desse tipo de vida e, como o casal relacionado no outro relato, resolveu mudar de vida, mas continuou liberando a esposa para fazer o que sempre haviam feito em conjunto. De início ela até que tentou, mas entrou em depressão profunda porque tudo havia perdido o sentido sem a presença do marido. Tivemos que trabalhar intensamente para que ela conseguisse sair dos cenários simbólicos primitivos nos quais estava atada, até chegarmos num ponto em que ela pode encontrar completude sexual diferentemente da tela em que ambos estavam anteriormente acostumados.

Para finalizar, certa vez recebi uma paciente super jovem e ativa em meu consultório. Melissa veio com a queixa de que algo estava muito errado com ela, em sua intimidade. Embora fosse uma profissional super bem-sucedida, com uma vida social bastante intensa, conta que apenas chegava ao orgasmo quando literalmente se estapeava com os seus parceiros. O problema é que o que mais a seduzia eram os tapas dados na cara. Quando começou a trabalhar com hematomas no rosto, entendeu que precisava de ajuda, a violência estava aumentando e ela, perdendo o controle. Em seu histórico, conta que inúmeras vezes presenciou cenas dos pais se digladiando, aos tapas. Outras vezes, o próprio pai desferiu alguns tapas em sua cara. Possivelmente, o seu cérebro entendeu a representação de afetos por este caminho enviesado....

Depois da fase da sedução que já contêm revelações, os medos, as carências, as agressividades mal resolvidas e questões emocionais de toda ordem, encontram um palco fértil para que, como num sonho, estes sejam passados e repassados com a parceria afetiva. As situações surgem como repetição, fixação de temas ou tentativas de se reprocessar determinadas cenas traumáticas de infância.
São temas que ocorrem sem a total consciência dos protagonistas e, mesmo aqueles mais despertos, têm apenas consciência parcial dos fatos quando não conseguem por si só se libertarem de tais cenários. 

Dependendo da parceria do momento, as interfaces de atuação podem ser modificadas e quanto mais inconsciente e mais prejudicada emocionalmente a pessoa estiver, mais difícil será a sua autopercepção. 
Se você estiver num processo de autoconhecimento e se perceber envolvido numa relação que lhe causa desconfortos, observe à distância o que pode estar ocorrendo e retire dessa vivência uma oportunidade para crescer interiormente.

Observação: embora a fonte dos relatos tenha sido inspirada pelo exercício da minha prática em consultório, declaro que as histórias são totalmente redimensionadas e, de modo absoluto, nada tem a ver com a realidade dos meus pacientes.

Quanto mais despertos, melhor!

 

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