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Saindo de relacionamentos abusivos

02/05/2016

Tenho uma recordação sobre a minha primeira infância que me mostra o quanto fui criada solta... Talvez meio largada fosse a palavra certa. Lembro-me de horas e mais horas, quando ainda muito pequena ficava perambulando sozinha no clube, o qual toda a família frequentava. Certamente que meus pais achavam o local seguro e, portanto, enquanto ficavam jogando cartas com seus amigos, deixavam-me solta para que eu fizesse o que bem entendesse. 

Com cerca de 6 ou 7 anos, ora fazia parte de algum esporte coletivo, ora ficava perambulando por lá e outras vezes brincava com algumas crianças no playground. Lembro-me das sensações que tinha naquela época. Frequentemente, percebia-me solta demais durante um tempo muito extenso, era muito pequena e sem os meus pais por perto. Sentimentos de desconforto, não muito claros para mim na época, mas que hoje entendo como solidão, abandono e desamparo, eram os meus companheiros mais comuns. Lembro-me de incontáveis vezes ter desesperadamente percorrido o clube em busca dos meus pais, quando estes saíam do lugar de referência e não me avisavam. Muitas vezes, eu estava com fome, sede ou queria apenas poder descansar ao lado deles. Mas eles estavam ocupados demais, entretidos em suas vidas sociais, em suas infindáveis conversas...

Cresci aprendendo a ter que dar conta de mim sozinha e acredito que bem antes do tempo em que as crianças de verdade costumam se virar. Escolhia os meus próprios esportes, saía de casa e ficava horas e horas na casa de vizinhos, até que eu mesma resolvia voltar para casa, embora minha mãe estivesse lá com os seus afazeres e me desse atenção quando eu pedia. Orientava-me dentro de casa com os horários, higiene e organização. 

Quando eu tinha 14 anos, passamos férias numa praia e, numa ocasião, fiquei embaixo do prédio em que estávamos alocados, batendo papo com alguns meninos, até que num dado momento fomos dar uma caminhada pelas redondezas. Esses garotos, assim como eu, também deveriam estar viajando com os pais e, como eram apartamentos alugados, ninguém se conhecia anteriormente.
Passado algum tempo, voltei para casa e para minha surpresa, pela primeira vez na vida, deparei-me com a minha mãe bastante nervosa comigo. Ela berrava descontroladamente e em sua ira, chegou a me puxar a orelha e me beliscar. Gritava dizendo que eu não a tinha avisado onde e com quem havia saído e que ela não conhecia nenhuma das pessoas com quem eu estava e ainda que eu havia demorado demais para voltar.
Fiquei totalmente paralisada e perplexa com a atitude dela e também sem entender porque teria que agir repentinamente de modo diferente do usual. Ninguém nunca havia conversado comigo sobre os possíveis perigos de sair com estranhos. Até aquele momento fatídico, sempre havia tirado as minhas conclusões sobre como deveria funcionar de acordo com atitudes dos meus pais para comigo. Não tinha a menor ideia de que poderiam haver situações diferentes do que havia aprendido.
No final, senti-me muito triste e culpada achando que eu era uma pessoa má, que fiz algo de muito errado e que talvez merecesse tais beliscões.

Vim para a terapia reprocessar uma série de abusos emocionais que passei ao longo da minha vida. Dificilmente, conseguia impor o meu não. O meu isso não está me fazendo bem. O meu aqui é o meu limite, esta é a sua linha vermelha, por favor não ultrapasse daqui para dentro.

O relato acima mostra o que aconteceu em meu modo de funcionar a partir daquele momento e como foi um divisor de águas moldando grande parte das minha condutas.

Durante a terapia de reprocessamento cerebral em EMDR, descobri que a minha mãe ficou desesperada pelo medo e pela falta de responsabilidade dela de ter me deixado solta e de eu ter podido eventualmente passar por algum perigo maior. Por não dar conta de lidar com estes sentimentos difíceis, inconscientemente, projetou toda a sua culpa em mim. Eu era a culpada de aos 12 anos de idade ter sido irresponsável, mesmo nunca tendo qualquer tipo de diálogo com os meus pais e zero de orientação nessa ordem.

O fato é que para proteger a minha mãe, tendo uma boa mãe internalizada, preferi assumir a culpa dela, ou seja, por ela. O problema é que como aquele dia se configurou como algo bastante assustador e traumático, foi como se tivesse caído o disjuntor e todas as luzes de dentro de mim subitamente tivessem sido apagadas... Logo na sequência, quando tudo se iluminou novamente, saí dessa história achando que os erros dos outros, ou abusos, sempre eram minha culpa e que eu devia fazer de tudo para agradar as pessoas, mesmo as ruins; afinal, eu poderia deixá-las muito bravas comigo, sendo uma pessoa má e ainda correndo o risco de não ser amada e de ficar no desamparo e na solidão tão conhecida e tantas vezes sentida...

Ao longo da minha vida, machuquei-me demais por conta dessa crença distorcida de realidade. Além de tudo, a angústia e o medo da solidão, do desamparo e do desamor, frequentemente, sobrevinham-me quando eu não era a boazinha...
Com o processo terapêutico, finalmente, libertei-me e pude colocar a minha agressividade de modo saudável e sem medo. Separar-me em definitivo do que é lesivo e ser a minha melhor amiga.

**Relato de uma paciente totalmente recuperada de relacionamentos abusivos.

 

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