Quem são os pais omissos na trama das mães perversas

23/05/2020

 

 

Na trama abusiva, o pai omisso é o parceiro que costuma facilitar as atitudes da mãe narcisista perversa em detrimento dos próprios filhos. Ele, porém, é mais uma das vitimas sequestradas e é tão impedido de proteger a si mesmo, quanto aos seus filhos. Ele é menosprezado, jogado para escanteio e ignorado.

As atitudes e diretrizes da família, portanto, ficam apenas e tão somente à critério da mãe, esposa desajustada. 

Caso o cônjuge resolva reivindicar o seu posto, ou mesmo se tentar proteger as suas crias das crueldades a elas inferidas, os resultados costumam ser tão devastadores, que dificilmente ele conseguirá sentir-se seguro o suficiente a ponto de poder confrontar com as situações armadas. 

 

Nas ocasiões de impacto, as respostas são repletas de dramas, descontrole emocional e encenações nos mais diversos cenários abusivos. A ira é direcionada ao marido, que ao final, para não abandonar o barco com os filhos dentro e a deriva, acuado, decide por se calar. E em seu silencio profundo anuncia a sua subjugação tornando-se coparticipante da trama abusiva, pela escolha da omissão. 

 

Por outro lado, a esposa narcisista, escolhe como marido alguém com um terreno emocional e com características de personalidade especificas para que possa colocar em pratica as suas desequilibradas e estratégias e ações. 

A fúria, o discurso e o drama das mães predadoras são estonteantemente intensas, a ponto de calar qualquer um que estiver a sua volta. O pai, muitas vezes ciente do que ocorre, ainda assim não tem coragem de colocar limites claros para proteger os seus filhos ou abandonar a família. A causa da desistência de si mesmo se deve à conceitos culturais e também por conta do resultado que os acuamentos emocionais no ambiente toxico promovem no universo psíquico. 

 

Por mais inacreditável que possa parecer, algumas vezes, a mãe é quem acaba pedindo a separação deste pai, acusando-o de inútil, invasivo e impondo outras desqualificações, quando este tenta cuidar da família ao seu modo ou mesmo proteger os filhos.

Nesta trama sem saída, se o marido se cala, ele é acusado de inútil e omisso, se reivindica, é acusado de sem jeito, agressivo, egoísta, desumano e desrespeitador da autoridade materna.

                             

Estas esposas muitas vezes avisam que vão se separar apenas para acuar mais ainda e dar uma espécie de “corretivo” no marido, imaginando que com isso a submissão poderá aumentar e elas assim ganhariam mais espaço ficando mais autoritárias e mais magnânimas em seus delírios de grandeza. 

Se nesta fatídica oportunidade, se o cônjuge estiver minimamente desperto,  vai aproveitar a deixa e cair fora de vez, apostando que os filhos reconheçam a vida que tem e que quem sabe, a que podem ter.

 

Nesses momentos, porém, mais uma guerra costuma ser armada e essas adoecidas mães farão de tudo para minar ainda mais a imagem destes pais. A tentativa é a de fortalecer a aliança de submissão dos filhos aumentando o medo do desamparo e da rejeição.

No entanto, as historias que tenho em consultório, mostram que por mais que essas mães tentem denegrir a imagem do pai, a verdade de algum modo sempre aparece.

Certa vez atendi um filho único que ficou grande parte de sua vida distante do pai, que havia se separado de sua mãe. Tinha lembranças das inúmeras vezes em que o esperou para passear e que ele não aparecia, tinha lembranças da sua mãe falando mal dele, dizendo que era assim mesmo e também tinha uma lembrança especifica de um dia em que o pai veio visita-la e trouxe um colar de presente, provavelmente numa tentativa de reconciliação, que ela não aceitou. Poucas vezes o viu depois disto, mas apesar das falas da mãe e da dor de não o ter mais encontrado, lembrava do pai sempre tendo sido afetivo para com ele. Já adulto, casado e com filhos, a sua mãe adoece gravemente e sendo ele, o seu único filho, larga tudo passando um bom tempo no hospital com ela até que inusitadamente o seu pai aparece, olha no seu olho e diz, vá para casa e tome um banho que a partir de agora este posto é meu. Depois de um tempo sua mãe falece e esta realmente amoleceu antes de partir, permitindo-se ser cuidada. O meu paciente também pode entender toda a trama que houve, além da que ele próprio havia passado com a mãe.

Mães narcisistas perversas retiram a identidade do próprio marido, para manterem o controle, acionando o filho de ouro, para ocupar o lugar deste marido, projetando e aprisionando neste, o papel do parceiro ideal.

Os filhos que vem fazer terapia conseguem discernir se foram os filhos de ouro, os renegados ou os bodes expiatórios destas tramas, podendo fazer as reparações necessárias cuidando de si mesmos, porque também são vitimas que sofreram bastante.

Quanto mais despertos, melhor!

Silvia Malamud

 

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